De repente, não mais que de repente, vi o que eu acreditava ruir. E não falo figurativamente. Aquele que se tornou meu alicerce, minha fortaleza, meu refúgio, simplesmente se foi, sem deixar muitas oportunidades de reivindicação. Não pude decidir se estava preparada para seguir sozinha…Hoje as palavras me faltam para descrever o vazio que se faz no meu peito. Por mais que eu creia em Deus, certas perdas são difíceis demais pra se aceitar. Um dia se acostuma com elas, tenta-se colocar em um lugar escondido do coração, onde não se precise pensar sobre o ocorrido… Mas pra mim é cedo. E tenho a ligeira impressão que vai ser sempre cedo demais para pensar em me acostumar.
E que peso tive durante minha graduação: ‘Camilla do Edgar’. Ninguém dissociava onde estava um ou começava o outro. Me lembro bem de uma professora que me disse certa vez que eu estava me envolvendo emocionalmente, que a minha vida era um “como se fosse”. Mas, de fato, por mais pejorativo que essa expressão tenha soado, eu assumo que pra mim, o Edgar era “como se fosse” muita coisa: meu espelho, meu ‘ídolo’, aquilo que eu sempre quis ser, com todos os requintes de ‘pai emprestado’, onde ele sabia meus gostos e me agradava sempre que possível. E eu a ele, pois pra mim a coisa mais especial desse grande homem é quando ele abria um sorrisão igual ao de uma criança, feliz com um elogio ou um agrado. E quão fácil era agradá-lo!
Por mais que ele acreditasse em mim, no fundo, sinto que não estou pronta. Não falo profissionalmente. Apesar de ter muito o que aprender, o conhecimento científico e metodológico, pode-se encontrar nos livros. Ou como sempre escutei ele dizer: se aprende mais com a experiência, na vida e no mar…
Mais que as lições de oceanografia e amor pela profissão que escolhi, o que mais me fará falta é a amizade construída. As conversas e histórias que eu nunca cansei de ouvir - e hoje daria qualquer coisa para ouvir alguma delas de novo. E as teimosias, as traquinagens, os momentos de cumplicidade onde não precisava se falar nada para que tudo fosse entendido. E todos os conselhos, todas as coisas da minha vida que ele sabia e que eu não tinha coragem de contar pra mais ninguém.
Vigiava a minha dieta, percebendo qualquer mudança, no peso ou no cabelo. E quanto pensamos em mim loira…
O suco de laranja com vodca antes do almoço.
O vinho todo dia durante as refeições (de preferência da Serra Gaúcha, costume que eu adotei desde então).
O cigarro Charm, e maço, porque o box ele julgava ser mais forte.
O cd da Minissérie ‘O tempo e o Vento’ tocando sempre que ele estava com saudade de casa. Ou a Barbara, entoando “Dis quand reviendras-tu?”, no melhor estilo tristeza francesa, que combinava magnificamente com o seu Whisky…
Hum… e eu conhecia o Edgar cozinheiro - e que cozinheiro! A maionese gaúcha que ele só preparava em ocasiões especiais (que me ensinou e fazia pra mim quando eu pedia). As valdívias gratinadas ao molho, que aprendeu a fazer na França (e segundo ele dava um trabalho danado! risos).
E sempre esquecia de colocar as coisas na mala, que eu depois ia fazer ‘vistoria’ antes dele viajar (incluindo ter que tirar material perfuro-cortante da bagagem de mão…que ele esquecia que não podia embarcar! rs).
E são tantas lembranças, que em mim ele se faz eterno. Hoje não mais meu refúgio, mas ainda meu espelho. Conformada, não posso dizer que estou. Quem sabe aguardando com fé, na esperança que ainda vou escutar muitas histórias do meu amado orientador, José Edgar Freitas Tarouco. E que ele sempre frisava, que era ‘Freitas’ e não ‘de Freitas’, pois ele não era posse de ninguém.
Mas, pra mim, era o Edgarzinho. Que todos meus colegas de turma diziam que eu ‘babava’, mas que nunca me importei de parecer isso. Talvez por que fosse verdade, mas nunca me envergonhei disso. E queria estar aí pra mimá-lo mais, pra rir com ele das besteiras que víamos na internet ou só pra escutar o novo cd da Bethãnia, com direito a cantar quase todas as músicas - sem o auxílio do folheto.
Por hora, só o que posso pedir é que Deus e Nossa Senhora mantenha-o em seus braços, redimido e consolado, como só os bons conseguem ser…por que no meu coração, nada muda, além da ausência temporária. O amor, o carinho, o respeito, o tornam eterno na minha vida.
Obrigada por tudo!